“Julgar-se proprietário da natureza, inibe o sentimento de pertencimento ao todo”.
Adalberto Eberhard
Voltei a ser monotemático. As angústias pantaneiras me levam a convidá-lo a imaginar a seguinte situação: multiplique a área total do estado de Sergipe, que é de 21.862,60 quilômetros quadrados, por seis e você terá o tamanho aproximado da área fisiográfica do Pantanal Mato-grossense. Agora, faça um esforço e imagine esta grande superfície tendo o formato de uma banheira. Imagine ainda, que a quantidade de chuva que cai nesta área é menor do que a quantidade de água evaporada e evapotranspirada. Imagine que esta banheira não tem rios próprios que nasçam dentro dela. Ou seja, que não tenha soberania hídrica e, ainda tenha, isto sim, um déficit hídrico, que a aproxima de clima semi-árido.
Figura 01- Onde a inundação não alcança, a paisagem é de semi-árido (Acervo Ecotrópica)
Conseguiu imaginar?
Pois bem, se a região é seca assim, como é que se explica que o Pantanal inunda todos os anos?
Esta gigantesca banheira é na verdade uma depressão originada há milhões de anos pela acomodação da superfície terrestre, para onde passaram a confluir o Rio Paraguai e seus afluentes em seus caminhos para a Bacia Platina.
Estes rios, todos provenientes das zonas planálticas brasileiras bolivianas e paraguaias, jogam, no período das chuvas, grande quantidade de água para dentro desta imensa depressão. Devido à sua baixa permeabilidade, à baixa declividade e a um estrangulamento formado por morros no sul da planície, o sistema recebe mais água do que é capaz de colocar para fora e a grande planície inunda. Ao contrário do que se imagina, o Pantanal não é um pântano. Sua gênese e seus fenômenos ecológicos não são deste tipo de ecossistema. É uma planície deprimida que sofre inundações por alguns meses do ano e depois seca.
Isto nada mais é do que um mecanismo de fluxo retardado. Simples assim! Como uma banheira semi-entupida, na qual entra mais água do que é capaz de sair. Enche, e depois vai lentamente esvaziando, até secar. Chove nas cabeceiras dos rios localizados nos planaltos, escorre para o Pantanal, entra mais água no sistema do que é capaz de sair, enche e depois, lentamente vai esvaziando. Ficam para trás os nutrientes.
Aí reside o milagre pantaneiro. A inundação anual ocasionada pelos rios do planalto criou e mantém a fantástica cadeia de vida na região.
Esta é a chave da vida que originou o Pantanal como nós o conhecemos. E é igualmente a chave da morte para o mesmo.
Mantenha na memória o exemplo da banheira. Se ela estiver conectada a uma caixa d’água que fornece água limpa, a banheira se encherá de água limpa.
Causa e efeito!
Durante milhões de anos a paisagem pantaneira foi desenhada, sobre uma base de caatinga, com águas e sedimentos naturais oriundos de biomas mais antigos como Floresta Atlântica, Amazônia, Chaco, Cerrado e Floresta Chiquitana. A caixa d’água fornecia água e sedimentos de qualidade. A permanente acomodação criada pela dinâmica das águas em confronto com os sedimentos por ela mesmo trazidos, foi lentamente soerguendo o fundo desta grande banheira, permitindo que a região fosse e continue sendo colonizada pela biodiversidade dos biomas circunjacentes. Por ser jovem, este desenho da paisagem ainda não está concluído.
Figura 02- Influência Amazônica (Acervo Ecotrópica/Günther Ziesler)
Rios que mudam de curso, ilhas que se formam, meandros de rios que se transformam em lagoas, campos virando floresta, áreas submersas transformando-se, primeiro em campos depois em arbustos e finalmente em florestas, num processo vivo que não aconteceu só no passado. Está acontecendo agora. Ainda. Água em quantidade e qualidade, sedimentos ricos em nutrientes e luz do sol. A tríade que constrói a pirâmide de vida mais fantástica do planeta.
Figura 03- Rio Paraguai e seus Paleo-leitos esculpindo a obra da paisagem não acabada<(Acervo Ecotrópica Haroldo Palo Jr)
Figura 04- Floresta colonizando áreas de campo nativo (Acervo Ecotrópica)
Se pelo contrário a caixa d’água fornecer água suja, a banheira fatalmente se encherá de água suja. Novamente, causa e efeito! O Pantanal é a banheira e os planaltos circundantes formam a caixa d’água.
Nos últimos quarenta anos a caixa d’água passou a ser abastecida com milhares de metros cúbicos de esgoto, toneladas de lixo, metais pesados, adubos químicos hidrosolúveis, herbicidas, inseticidas, fungicidas e quantidades inimagináveis de sedimentos sólidos oriundos da erosão nas cabeceiras dos rios, a dinâmica das águas alterada pela construção de hidrelétricas e hidrovias. A consequencia é lógica. A banheira e tudo que vive nela estão se decompondo de ano para ano.
A parte macroscópica deste processo é facilmente visível na total degradação e assoreamento dos Rios Taquari, Piquiri e São Lourenço. Outros logo serão visíveis. Sobre estes se fala, apesar de nada se fazer. No entanto, o mais preocupante é a parte não visível. É a sabotagem na base do processo produtivo que mantém vivo todos os fenômenos visíveis da região. Todos podemos ainda ver as garças, os jacarés, antas, capivaras, onças, mas ninguém sabe o que está acontecendo com os microorganismos invisíveis e com os fenômenos bio-geo-químicos que mantém toda esta maravilha viva e que fazem chegar aos nossos olhos aquilo que somos capazes de perceber.
A adolescência do Pantanal está sendo bombardeada. Isto fica ainda pior, quando analisamos o fato de que a maravilha de sua biodiversidade é consequencia da contribuição dada pelos biomas circundantes. A vida entrou e continua entrando pelas bordas da planície. Floresta Amazônica, Chaco, Caatinga, Floresta Atlântica e Cerrado, vão se misturando na colonização da região, a medida em que as condições de solo, nutrientes, e umidade, vão privilegiando a avanço de um ou de outro. Para que este fluxo genético se mantenha, parece óbvio, que estes biomas continuem a existir nas vizinhanças.
No entanto, o que se observa é o total insulamento da planície pantaneira, na medida em que toda sua borda está sendo desmatada e seus biomas formadores, sendo afastados cada vez mais. Nem sequer existe preocupação com corredores e conectividade.
É a erosão genética na vida do bioma adolescente.
Figuras 05 e 06 - Destruição das cabeceiras do Rio Paraguai - Região das Sete Lagoas (Fonte Google Earth)
Figura 07- Erosão nas cabeceiras do Rio Cuiabá(Acervo Ecotrópica)
Figura 08- Rio Cuiabá, o mais importante afluente do Rio Paraguai na formação do Pantanal. Todo este resíduo, bem como milhares de litros de esgoto vão se depositar no Pantanal.
Por tudo o que foi dito acima, fica claro que não existe a menor possibilidade de o Pantanal se manter vivo, se o planalto continuar a ser degradado. Em virtude do reconhecimento desta interdependência a sociedade passou a ter cada vez mais a consciência de uma abordagem sistêmica e passou a fixar-se a na definição de Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai.
Vários grandes delírios governamentais abordaram esta questão nos últimos 30 anos. Primeiro veio o EDIBAP-Estudo do Desenvolvimento Integrado da Bacia do Alto Paraguai, seguido pelo PCBAP-Programa de Conservação da Bacia do Alto Paraguai, o GEF Pantanal, duas versões do Zoneamento Agro-ecológico-econômico de Mato Grosso, uma versão do Macro Zoneamento Geo-ambiental de Mato Grosso do Sul e finalmente o Programa Pantanal.
Muito dinheiro gasto, muitas expectativas frustradas, bibliotecas mais abarrotadas, muitos diagnósticos e praticamente nada foi de fato concretizado. O planalto continua se desmanchando para dentro da planície.
Ao lançarmos o olhar para as Unidades de Conservação existentes na Bacia, verifica-se que do conjunto de áreas protegidas existentes, somente Reservas Particulares do Patrimônio Natural-RPPN contemplam a proteção da interface terras altas/terras baixas com seus respectivos ecótonos.
As áreas protegidas governamentais como o Parque Nacional do Pantanal, a Estação Ecológica de Tayamã, o Parque Estadual Encontro das Águas, o Parque Estadual do Rio Negro, o Parque Estadual Guirá, localizam-se na planície, mas sem conectividade com o planalto enquanto que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, o Parque Nacional da Bodoquena, a Estação Ecológica Serra das Araras, o Parque Estadual Águas do Cuiabá, o Parque Estadual Águas Quentes, o Parque Estadual Dom Osório Stöffel, O Parque Estadual Gruta da Lagoa Azul, o Parque Estadual Masaiko Okamura, o Parque Estadual da Saúde, o Parque Estadual da Serra de Santa Bárbara, o Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari e o Parque Estadual da Serra de Sonora, localizam-se no planalto sem conectividade com a planície.
É urgente que se lance um olhar mais sério sobre a questão da conectividade e dos corredores.
Os processos de licenciamento ambiental nos dois estados precisam urgentemente levar em conta a conectividade entre reservas legais, áreas de preservação permanente e velhas e novas unidades de conservação para garantir o fluxo genético entre as terras altas e as terras baixas.
Neste sentido sempre surge a pergunta: é importante criar novas unidades de conservação na planície inundável?
Se considerarmos a informação acima citada de que existem cerca de 12 Sub-Pantanais precisaríamos ter mais um conjunto de unidades que contemplasse os ecossistemas hoje não contemplados. A questão básica, no entanto, é a seguinte: a água não reconhece e não respeita divisas políticas. Reconhece e respeita o caminho da vida. Portanto, para cada passo conservacionista cumprido na planície inundável, temos que cumprir com ações urgentes correspondentes no planalto. Neste sentido considero uma falha estratégica brutal e criminosa à medida que vem sendo implementada pelos governos locais ao estimularem a compensação de passivos ambientais no planalto por criação de áreas protegidas na planície.
A situação dramática vivida pelo Pantanal não é diferente daquela encontrada nos demais biomas brasileiros. No entanto, enquanto o Pantanal continua vendendo sua imagem de paraíso, em que tudo é belo aos nossos olhos, suas bases ecológicas estão sendo destruídas. Quando a pancada aparecer na parte visível, poderá ser irreversivelmente tarde.
O choque será grande por que a sociedade não estará amortecida pelas permanentes noticiais sobre tratores de esteira, moto-serras, caminhões de madeira apreendidos, como ocorre em outros biomas. Estes eventos sempre nos dão a clara visão de degradação progressiva e tragédia anunciada. No Pantanal, acredito que não será assim, uma vez que estes eventos já destruíram quase todo o cerrado e a Amazônia Meridional onde nascem os grandes formadores do mesmo. Quando o colapso acontecer, será de surpresa. .
Neste clima de emergência, em que toda a natureza brasileira está sendo degradada, em que vivemos na glória do falso marketing amazônico, dando continuidade a cinco séculos de degradação, como fazemos para mudar o cenário?
Como transformar a relação “proprietarista” dos brasileiros em relação à natureza, numa relação de pertencimento ao todo?
Como incutir coragem nos administradores públicos pagos pela sociedade brasileira para zelar pelo patrimônio natural do Brasil?
Um padre, amigo, tinha uma resposta para estas três perguntas. Dizia ele “o negócio é ir rezando na frente e baixando a borduna atrás”. Educar os jovens e punir os infratores.
No Pantanal, planalto e planície formam uma unidade indivisível e interdependente. Isto acontece igualmente na sociedade brasileira. Sociedade e governantes mantém uma total relação de causa e efeito. Sociedade sem consciência elege políticos sem consciência. Sociedade corrupta elege políticos corruptos. Ausência de indignação e excesso de complacência elegem aproveitadores”.
As eleições estão chegando, mais uma vez. Precisamos exigir compromissos públicos, convencer eleitores, eliminar a corja que se aboletou no poder por absoluta indiferença da sociedade brasileira para com a natureza que nos foi emprestada.
Finalizando, gostaria de reafirmar minha crença de que a humanidade existe por consentimento ecológico. Vivemos, no entanto, como se o planeta não precisasse continuar existindo depois de nossa partida. Esta aparente imutabilidade da natureza de ter o poder de suportar todas as agressões sem entrar em colapso pode mudar sem aviso prévio. Na verdade, já está acontecendo. Novamente, causa e efeito.
incrivel alemão que mesmo depois de tantos anos tu ainda consigas ser aquele guri totalmente preocupado com a natureza e como nos comportamos com ela > tri saber que alguns consigam ter sempre o mesmo ar """ sonhador e confiante "" que se tem quando jovem
ResponderExcluirabraços
muito inpougante essa ideai de nos informar mais
ResponderExcluirsobre o nosso pantanal e suas mudanças, nos ajudanda a ser consientizados!!!!!!!!
joycinha.